13 de out de 2009

O Botequim.

À tarde, como de praxe, o botequim encontrava-se vazio.

Alaôr, Seu Ala para os íntimos, proprietário, garçom, caixa, cozinheiro e confidente estava olhando para a TV, tentando captar alguma coisa entre os chuviscos da 14 polegadas.

Quando os três ponteiros do relógio de parede estavam todos no 3 – o dos segundos, quebrado, nunca saia de lá – eles entraram.

Inimigos mortais, não se falavam desde a infância. Maior que o ódio que sentiam um pelo outro, apenas a curiosidade que o encontro diário para um café causava nos funcionários do botequim, seu Ala e a TV.

A tensão pairava no ambiente, junto com o escape dos ônibus que saiam de cinco em cinco minutos do terminal logo em frente.

O bule, com duas xícaras, já os esperava no local de sempre.

Sentavam-se ali todas as tardes e ficavam horas em silêncio. Um servia café ao outro, mesmo correndo perigo. Desconfiavam de uma dose fatal de veneno.

Seu Ala desconfiava de uma futura úlcera, devido ao café.

Quando o bule secava, eles levantavam, pagavam e saiam lado a lado, com medo de uma punhalada pelas costas. E assim eles seguiam a rotina, regando o ódio com cafeína.

Até que um dia, ao darem o primeiro gole no café, se entreolharam com ódio e surpresa nos olhos, caindo no chão do botequim logo em seguida.

Mortos.

No enterro só estavam presentes Seu Ala, o coveiro e o bule, que fora colocado por cima dos caixões, em uma homenagem irônica.

Uma semana depois, na tranqüilidade de uma tarde sem tensões, mas ainda com a fumaça dos escapes, Seu Ala decide tomar uma cafezinho. Seu último pensamento antes de cair morto no chão do botequim foi: “Como eu pude esquecer de lavar as xícaras?”





5 comentários:

marina disse...

as mórbidas ironias da vida muito bem retratadas neste breve conto.

Nathália disse...

O post, ótimo as usual.
Mas confesso que sempre que eu venho aqui (menos do que eu gostaria, devido à sua preguiça de postar) o que mais me ganha é esse teu quem sou eu.

*deixo aqui registrado, mais uma vez, o meu pedido de postagens mais frequentes.
grata!

Rodrigo Rios disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Vi disse...

Tipo... Mas porque mata-los in the first place? ^.~

Vi disse...

Tipo... Mas porque mata-los in the first place? ^.~