6 de nov de 2008

Pebas, não. Não mesmo

Nunca fui fã de poesia.
Pra ser sincero, sempre achei um saco.
Principalmente quando pegava um verso pra lá de confuso e perguntava a um fã do babado que diabos aquilo significava e ouvia de volta:
“Ah, isso depende da interpretação de cada um.”
Como assim?!
Quer dizer que Fulaninho de Tal escreve o que quer e nem precisa fazer sentido?
Isso é que é profissão, pensava eu com meus botões.
Botões não. Zíperes, que eu sou modernoso.

Outra coisa que eu nunca gostei e até tinha medo, antes de chegar na idade de conseguir espantar alguém com olhares ameaçadores: cantadores.
Na boa, ter que ficar ouvindo dois caras fazendo piada com você e no final ainda ter que pagar com medo de ser mais achincalhado?
Non, non, non. É demais pra mim.

Por isso nunca imaginei que algum dia eu aplaudiria de pé, e com vontade, a junção dessas duas...er...formas de arte.

No dia 22 de outubro eu fui para o lançamento do CD A Revolução dos Pebas, da banda Fim de Feira no teatro da Universidade federal de Pernambuco.
Como amigo dos integrantes, sempre fui aos shows e acompanhei a evolução do grupo. Mas, sinceramente, nunca fui fã.
Então, ao chegar no show, me preparei para duas horas de “lamento sertanejo”.

Odeio estar enganado.

A cortina subiu e meu queixo caiu.
Fiquei espantado em de repente me dar conta que o trio pé de serra com a zabumba hardcore de Bruno se transformou em um grupo musical pra lá de sensacional.

Acompanhei as músicas com uma avidez impressionante. Até parecia que eles eram britânicos.

Até os versos de Bruno, que eu já cansei de ouvir e até memorizei, mas não sem antes lutar muito contra, fizeram os pêlos do meu braço lutarem contra a força da gravidade.

Quando André começou a cantar, senti uma coisa que só achava que sentiria quando meu filho chegasse na mesa final do WSOP: orgulho.

Daí pra frente foi só ascensão, com convidados especiais e música nordestina tipo exportação.

O apogeu chegou e com ele veio uma batalha de pandeiros.
A platéia estava alucinada, não tanto quando Tonzinho, que parecia duelar com as cordas dos seus instrumentos e, para delírio dos presentes, sempre sair ganhando.

De repente, graças ao declamador, um cheiro de bolo que eu não sentia há muito tempo invadiu as minhas narinas.
E ele só aumentou quando seu Florismundo levantou-se para saudar seus netos.

Contrariando as regras conhecidas, a queda não veio.
O que veio foi uma chuva de aplausos. E merecidos.

Ao contrário de quando eu cheguei, saí de lá estranho.
Continuava sem gostar de poesias e cantadores ainda tinham lugar cativo na minha câmara de torturas.

Mas não pude deixar de sentir uma sensação conhecida, como se eu novamente tivesse comido um daqueles bolos, depois de torcer um bocado para ele dar errado.