17 de set de 2008

Cheiro de avó

E cá estou eu.

Pensando um monte de coisas quando deveria estar pensando em um título pro anúncio de carros usados de um cliente.

Entre essas coisas eu lembrei da minha avó.

Vovó Dezinha.

É, ela era tão fofinha quanto o nome.

E sim, ela já morreu.

Eu a amava do fundo do coração. Afinal de contas, ela era daquelas avós que todo mundo amava. Até os netos das outras avós.

Eu tenho uma visão muito particular da Dona Morte.
Inevitável.
Igual a lamber a tampa de alumínio do iogurte.

E acho que foi por isso que eu, por mais incrível que possa parecer, não fiquei triste quando ela morreu.

Chorei, é claro. Mais do que o Cesar Cielo.

Mas chorei de saudade. E não de tristeza. Porque eu sabia que ela era feliz.

Bastava olhar naqueles olhinhos pequenos para ver que ela era muito feliz.
Sabe aquela pessoa que você olha e muda seu humor?
Ela era assim.

E não era aquela felicidade que se sente quando o time ganha do rival, ou quando se acha uma nota de 50 no bolso da calça.

Era felicidade de ter vivido. E bem.

E é por isso que eu não fiquei triste quando ela cansou daqui e partiu.

Apesar de às vezes ainda chorar de saudade.

Quando eu me lembro do abraço e do beijo na cabeça.
Ou da risada aguda e contagiante.
Quem sabe é por causa dos carinhos no meu cabelo quando eu deitava no colo dela?

Mas nada se compara a lembrança do cheiro dela.

Cheiro de avó.

Da minha vovó Dezinha.




7 comentários:

Marina disse...

alguém que eu queria muito, muito ter tido a honra de conhecer. e que, às vezes, de tanto ouvir falar com orgulho, carinho e saudade, dá a impressão de conhecer... nem que seja um pouquinho.
e cheiro de avó é certamente uma delícia.

Nathália. disse...

Cheiro de avó pra mim é uma mistura de sabonete com galinha guisada. Isso tudo, dentro de um armário úmido onde ela guardava meus biscoitos preferidos.

Amor de vó é outra história.

Marivete disse...

Comigo também foi assim.
Eu fiquei saudosa, não triste.
Tomara que eu tenha herdado algo de D. Adelaide - rsrsrs.

Jairo Cabral disse...

A morte é um dilema filosófico milenar.A forma de encará-la depende da percepção individual/imanente de cada um e do modo como a cultura dos diversos grupamentos sociais a enxerga.Como a morte palmilha,inexoravelmente, o caminho da vida,prefiro arrostá-la como um desafio,na incerteza do outro lado.Mergulhar plenamanete na interrogação do lado oco da vida.Qdo Adelaide/Dezinha,mudou de ares,não chorei.Talvez pelo embrutecimento macho da vida militante.Talvez pelo acanhamento da lágrima escassa.Naquele instante limite da partida,a saudade imprimiu na parede da memória,a imagem confraternizadora dos nossos alegres natais.Diz o direito de família que sogra é para sempre.Adelaide/Dezinha foi única,no seu jeitinho de ser sogra.

Eduardo da Fonte disse...

Os mais antigos já diziam:
"Os avós estragam para que os pais possam educar"

Eu tenho a sorte de ter um avô/pai que sabe a hora de "estragar" e a hora de "educar" também.

Lindo texto.

Clau disse...

me deu vontande receber o cafuné da minha vó, aqule estalado sabe?
e ouvir as histórias...

Marizete disse...

Eu também sinto muita saudade dela, mas é uma saudade feliz (acho que vocês me entendem ...).

Eu gosto de pensar que ela está apenas viajando e que vai me ligar a qualquer momento.

Eu tive o prazer de conhecer as minhas 2 avós. Ambas eram pessoas especiais, cada uma a seu jeito. E ambas tinham um cheirinho gostoso de vovó.